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 Samuel


Há muitos anos atrás
Há muitos anos atrás

Há muitos anos atrás


Foi á muitos anos atrás… quando a minha memória começou a fixar as coisas que via, talvez á volta dos meus 8 ou 9 anos. Lembro-me que era uma manhã risonha, com orvalhada, mas com sol quentinho; Tinha dormido em casa dos meus avós maternos, o que fazia frequentemente, pois eu era um dos seus netos preferidos. Ainda me lembro da minha avó me proteger das asneiras de miúdos desse tempo. Ainda me lembro da primeira vês que meu pai me mandou a um terreno situado a uns 6 quilómetros da aldeia onde vivíamos chamava-se a ladeira das 7 voltas, num domingo á hora da missa para ir colher agriões numa presa para fazer uma salada para o almoço. Uma verdadeira aventura para uma criança da minha idade; talvez daí a razão do que vou contar; e eis o principal cenário que continua vivo na minha mente e o motivo por que escrevo esta crónica. Ainda me lembro… que ao sair do povoado, no sítio da ladeira das três voltas, quando os casebres da minha aldeia, (sim...casebres) na altura chamávamos-lhe casas, já tinham ficado para traz e comecei a avistar a natureza. Ao meu lado esquerdo, pinhais; ao meu lado direito, o sol que há pouco tinha nascido, os baturéis, um chão de terra cultivado que por sinal era de meu avô paterno e ouvi o canto das aves naquela manhã, que (hoje sei) era de Primavera, ainda me lembro… do caminho marcado pelos fundos rodados dos carros de bois; e gostei tanto daquela paisagem e daquele contacto com a natureza, que não sei porquê, as minhas retinas de criança, fixaram e gravaram para sempre na minha memória, aquele cenário, para o resto da minha vida. Razão pela qual vou visitar todos os anos por volta do Mês de Agosto. Na minha mente de criança, penso hoje, se existe o paraíso, seria aquela paisagem, aquele envolvimento com a natureza, naquele ambiente rural, naquela idade do desabrochar para a vida…visto por uma criança. Como eu gostaria de saber transmitir numa tela, estas imagens de infância que ainda guardo na minha mente. Ao ouvir os diferentes cantos das aves, perguntava ao meu pai e ele me dizia… é o rouxinol, é o pintassilgo, etc., isto ao longo dos pinhais e terras de cultivo. Ao avançar para os pinhais, o canto das aves já era outro; o cuco e o gaio, este ultimo lembro-me ter visto alguns… de criança, não talvez nesta minha primeira aventura, pois na minha memória ficou mais acentuada aquela imagem da saída da povoação e o contacto com o espaço aberto e para mim, grandioso da natureza. Hoje… percorrendo o mesmo trajecto (paraíso) de á 50 anos, o que fiz á alguns anos atrás, o caminho hoje é diferente; desapareceram os vestígios dos animais de carga e os rodados dos carros de bois, as casas hoje podem-se chamar casas, (não casebres) mais bonitas e confortáveis, mas as aves… essas desapareceram; o seu cantar foi substituído pelo som da rádio e as terras que outrora estavam bem cultivadas, qual jardim do paraíso está abandonado; e na montanha, o pinhal oferece uma imagem desoladora; paisagem de terra queimada, (dos fogos do verão). O paraíso da minha infância, da memória a desabrochar para o mundo, como aquela manhã de Primavera…desapareceram… mas enquanto eu viver, ainda me lembro… Á coisas que nunca esquecem… e outras por serem das primeiras que o nosso cérebro guarda, quando começamos a tomar consciência do que existe á nossa beira, ficam-nos gravadas para sempre nessa calculadora maravilhosa a que chamamos memória e vão e vêm á nossa mente para o resto da nossa vida. Esta é uma delas. Ainda me lembro… nas horas de nostalgia… cá longe… na emigração. Nascido no Ourondo em 1949,uns anos depois em que tinha acabado a II guerra mundial (39/45) escusado será dizer que foram anos difíceis para toda a Europa. Ainda me lembro que o Ourondo, era uma aldeia como tantas outras de uma fisionomia rural e agrícola, mas com a particularidade de estar ligada á exploração do volfrâmio das minas da Panasqueira, sendo esta industria uma das bases de sustento de muitas famílias. Não me lembro muito bem das grandes vicissitudes da mesma, no que toca á falta de básicos géneros alimentícios, como pão e mercearias, Havia racionamento para muitos géneros de consumo, como pão, açúcar, arrôs, sabão e etc., que eram distribuídas pela então, IGA (Intendência Geral de Abastecimentos) todos os meses aos comerciantes. Esta entidade estatal, regulava os abastecimentos de géneros de consumo básico ás populações. Assim conforme o número de pessoas do agregado familiar, era-lhes atribuído uma certa quantidade desses produtos, que os comerciantes iam levantar aos armazéns da sede de concelho. Algumas dessas famílias com maior numero de filhos e que portanto tinham acesso a mais uns quilos desses produtos, por vezes, por falta de dinheiro, vendiam esses géneros a outras pessoas que melhor os podiam comprar. Por alturas de 1955/60 as Paróquias recebiam igualmente farinha americana e canadiana, doada pela “Caritas” uma organização internacional de apoio aos países pobres, (sim Portugal estava classificado como tal) para ser distribuída pelas pessoas com mais necessidade nas aldeias, o que nem sempre acontecia. Parte dessa farinha era vendida ás padarias, -desculpem esta revelação, mas isto faz parte da história do nosso povo porque era farinha “especial” e bastavam uns 10 a 15 kg num saco de 75 kg para se fazer um pão de muito melhor qualidade e apresentação, já que a farinha fornecida ás padarias era uma mistura de trigo, fava e feijão frade (pequeno). Quem se lembra ainda dos famosos pães de testa (5$00). Em muitas aldeias não havia padarias, ou se havia, eram apenas exploradas nas mesmas. Não nos esqueçamos que nesta época as aldeias eram mais povoadas do que actualmente. Embora vivendo-se com dificuldades, havia nelas “‘vida”, comparado com esse tempo, hoje são quase aldeias “fantasmas”. O pão desta época eram na maioria, unidades de 1 kg, kilo e meio e do tamanho de um prato. Usava-se o pão de testa, o centeio e o pão de milho, (mais conhecido por brôa) a (5$00) e igualmente o de 1kg ($3.30). Menos usado era o pão “fino” assim lhe chamavam, que consistia de regueifas (4$80), carcaças ou pão de quartos (1$60) e os celebres papo-secos ($0.40), que chegaram aos nossos dias. Esse pão era distribuído pelas aldeias do “rio”como Coutada, Barco, Paul, Ourondo, Casegas, Sobral e para o lado norte, Erada, Unhais, Cortes e até á isolada Bouça. Onde não havia estrada e era enviado um robusto cavalo, pelo comerciante, que transportava 3 cestos de pão, para ser revendido no único estabelecimento da povoação. Alguns anos depois tentava-se a zona industrial do Tortosendo, Covilhã e as inúmeras quintas ao redór. Existiam ainda, que eu me lembre, dois fornos de coser pão para o povo, um deles era o da Tia Raposa... (?) funcionando no sistema de “maquia”. Maquia era a forma de pagamento das pessoas pelos serviços prestados. Assim pagava-se o uso do forno com o mesmo pão, consoante a quantidade de pão cosido. Pagava-se uma "cóta" com produtos da terra, como milho e azeite, ao barbeiro, aos barqueiros para a travessia do Zêzere. O mesmo acontecia com o Doutor. O pagamento da côngrua ao Padre, era igualmente feito com os mesmos produtos. O dinheiro era um “bem” secundário, que muitos possuíam em mínima quantidade. Nestes tempos em que a estrada não era alcatroada e os caminhos todos poeirentos no verão e lamacentos no inverno, andava-se muito a pé. Por alturas de 1958/59, (?) chegou a electricidade ás aldeias do Rio, desde o Dominguiso, Barco e Ourondo, isto foi certamente um dos grandes benefícios do desta época. Este melhoramento veio proporcionar como é óbvio um substancial desenvolvimento ás aldeias e uma melhoria nas condições de vida daqueles que podiam instalar a luz eléctrica em casa. Para esses as candeias de azeite ou os candeeiros a petróleo, poderiam já ser coisas do passado. Possibilitou igualmente a mecanização da indústria. Ouvir-se a rádio era já possível, pagando uma licença anual de 100$00 escudos á então Emissora Nacional. E passados poucos meses, eis que apareceram mesmo os fiscais da Emissora entrando nos estabelecimentos e apanhando os que não tinham essa licença, creio que nenhum a tinha.Com a rádio, nas tabernas já poderia haver mais divertimento e informação, tal como o relato dos jogos de futebol. Lembro-me igualmente que nomeadamente as mulheres, se reuniam em frente da telefonia para ouvirem o” romance”. As tabernas iam-se transformando em cafés (onde café não havia) ficariam a ser tabernas mais civilizadas, pelo menos com cadeiras e mesas, em vês dos tradicionais bancos quadrados de madeira. O primeiro verdadeiro café a ser aberto no Ourondo, foi o do Alfredo Antão, isto já antes da vinda da Televisão. Todas as noites eram casa cheia, principalmente para a noite de teatro. As emissões começavam da parte da tarde acabava á volta das 11 da noite. Uma das bebidas mais populares na altura, para os que não bebiam vinho, era uma mistura de gasosa com café (de cevada) que fazia uma espuma mais parecida com cerveja preta. Havia um nome próprio para esta bebida, que não me recordo. Ainda me lembro que a primeira vês que vi televisão foi na caixa escolar no Ourondo, Queria recuar um pouco no tempo, para antes da vinda da televisão. Ainda me lembro que as pessoas no dia das celebrações de N.Sra de Fátima, no 13 de Maio, enchiam a sala, em casa do pároco da Freguesia, para ouvirem na rádio as reportagens das mesmas. Alfredo C. Rodrigues